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Em “Buena Vista Social Club”, o tempo também canta
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Em “Buena Vista Social Club”, o tempo também canta

No Fox Theatre, um elenco em plena sintonia e uma realização visual impecável dão corpo a uma história sobre memória, pertencimento e o direito de voltar a ser ouvido.


Há uma diferença entre recordar uma canção e reencontrar a vida que ficou dentro dela. É nesse intervalo que Buena Vista Social Club encontra sua força. O musical, em cartaz no Fox Theatre de Atlanta de 27 de outubro a 1º de novembro, transforma a história de um encontro musical extraordinário em uma experiência sobre aquilo que o tempo leva - e sobre o que, por alguma combinação de talento, persistência e acaso, ele nos permite recuperar.

Saí do teatro impressionado com a unidade da produção. O elenco está afinado no sentido mais amplo da palavra: há uma ideia compartilhada de espetáculo, uma sintonia que dá consistência ao conjunto. Figurinos, iluminação e cenografia participam dessa mesma conversa. A beleza visual é evidente, mas o que permanece é a sensação de que cada departamento compreende a história que está ajudando a contar.

Com libreto de Marco Ramirez e direção de Saheem Ali, a narrativa alterna a Havana dos anos 1950 e as sessões de gravação de 1996 que dariam origem ao célebre álbum. O reencontro de músicos veteranos oferece a estrutura para uma viagem às escolhas de juventude, às separações e às ambições que atravessaram suas vidas. Inspirada em pessoas e acontecimentos reais, a dramaturgia trabalha com liberdade ficcional; sua proposta é construir uma experiência teatral, sem assumir a obrigação de uma biografia documental.


No centro desse percurso está Omara Portuondo. O convite para retornar ao estúdio exige que a cantora também se aproxime de um passado que continua a afetá-la. A juventude ao lado da irmã, Haydee, o encontro com outros músicos e as tensões entre carreira, família e pertencimento dão à gravação um significado que excede o projeto de um disco. Voltar a cantar implica decidir o que fazer com aquilo que ainda dói.

Essa estrutura permite uma leitura particularmente bonita: a juventude continua presente nas pessoas que envelheceram. As duas épocas se iluminam mutuamente. O espectador conhece os sonhos e, depois, reconhece o que aconteceu com eles.

Na companhia anunciada para Atlanta, Karmine Alers interpreta Omara, enquanto Isabel Gonzalez assume sua versão jovem. Mauro Castillo é Ibrahim Ferrer, vivido na juventude por Jaleel Battles, Jr.; Frank Rodríguez interpreta Compay Segundo, com Aidan Olmo como o jovem Compay; e Robert M. Jiménez é Rubén González, cuja fase jovem cabe a Irving Aday O’Connor. Completam esse núcleo Liana Morales como a jovem Haydee, Holiday como Juan de Marcos e San Miguel Pérez como Eliades.

A distribuição dos personagens entre gerações oferece mais do que uma solução para os saltos temporais. Ela convida a observar a distância entre uma promessa e uma vida inteira.

E é a coesão do elenco que dá sustentação a esse encontro: o prazer de assistir à companhia está justamente na percepção de um trabalho coletivo, no qual a identidade do espetáculo se mantém acima da soma de seus intérpretes.

O acabamento visual merece atenção própria. Os figurinos de Dede Ayite são impecáveis; a cenografia de Arnulfo Maldonado, impressionante; e a iluminação de Tyler Micoleau completa uma composição de extraordinária harmonia. Há montagens em que o espectador admira separadamente a roupa, o cenário ou a luz. Aqui, minha impressão foi a de uma linguagem comum. O rigor técnico encontra uma forma de parecer natural - uma das conquistas mais difíceis de alcançar no teatro musical.

0576 - The North American Tour company of Buena Vista Social Club, photo by Matthew Murphy

O roteiro também oferece uma questão que merece sobreviver à apresentação: quem recebe a oportunidade de ser ouvido, e quanto tempo pode levar até que essa oportunidade chegue?

A passagem dos anos dá peso ao reencontro. Quando a música volta a reunir essas pessoas, existe uma história anterior em cada presença. A celebração ganha profundidade porque carrega consigo o custo da espera.

Os prêmios ajudam a dimensionar o reconhecimento da obra. Em 2025, a produção da Broadway recebeu quatro Tony competitivos: atriz coadjuvante em musical, para Natalie Venetia Belcon; coreografia, para Patricia Delgado e Justin Peck; orquestrações, para Marco Paguia; e desenho de som, para Jonathan Deans. A banda recebeu ainda um Tony especial.

São distinções da produção da Broadway, cuja trajetória antecede a companhia que agora se apresenta em Atlanta.

É um reconhecimento expressivo. Ainda assim, a experiência no Fox tem força para se sustentar sem a lista de troféus. O que me conquistou foi a combinação de precisão e humanidade: uma produção cuidadosamente realizada, um elenco coeso e uma história capaz de encontrar, na passagem do tempo, motivos para a emoção.

Buena Vista Social Club deixa uma ideia especialmente comovente: uma voz pode atravessar décadas à espera de quem a escute. Quando esse encontro finalmente acontece, ouvimos também os anos que vieram antes.

1151 - Irving Aday O’Connor (seated at piano), Aidan Olmo, Liana Morales and Isabel Gonzalez, photo by Matthew Murphy