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Brasileiros pagavam até US$ 40 mil por casamentos falsos para conseguir Green Card nos EUA
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Brasileiros pagavam até US$ 40 mil por casamentos falsos para conseguir Green Card nos EUA

Investigação federal revela esquema que teria funcionado por cerca de 12 anos em Massachusetts. Seis pessoas foram acusadas de organizar uniões fraudulentas, criar provas de relacionamentos e receber pagamentos de imigrantes interessados em obter documentos americanos.


Um esquema de casamentos fraudulentos que envolvia imigrantes brasileiros e movimentava milhares de dólares foi descoberto por autoridades federais dos Estados Unidos em Massachusetts. Segundo a investigação, a organização cobrava até US$ 40 mil por pessoa para realizar casamentos de fachada com cidadãos americanos, com o objetivo de facilitar a obtenção do Green Card.

Seis pessoas foram acusadas de participar da operação, que teria funcionado durante aproximadamente 12 anos. A investigação aponta que os envolvidos organizavam cerimônias, preparavam documentos e criavam registros para fazer os relacionamentos parecerem legítimos perante as autoridades de imigração.

Entre os clientes identificados estavam pelo menos oito brasileiros sem situação migratória regular nos Estados Unidos.

A denúncia também descreve pagamentos mensais aos americanos que aceitavam participar dos casamentos, além da criação de contas bancárias conjuntas, seguros de vida e fotografias utilizadas para sustentar os pedidos de residência permanente.

Mulher de Massachusetts é apontada como líder do esquema

De acordo com os documentos da investigação federal, Jennifer Gonzalez, de 43 anos, residente em Fall River, Massachusetts, é apontada como a principal responsável pela organização.

As autoridades afirmam que ela cobrava entre US$ 38 mil e US$ 40 mil de cada imigrante interessado no serviço.

O esquema teria capacidade para organizar aproximadamente 18 a 20 casamentos por ano, segundo a denúncia.

Jennifer seria responsável por coordenar os participantes, organizar os acordos financeiros e orientar os envolvidos sobre a documentação necessária para apresentar os relacionamentos como verdadeiros.

Outras pessoas recebiam dinheiro para atuar como cônjuges nos casamentos de fachada.

Entre os acusados está Erica Daniels, de 29 anos, que, segundo os investigadores, teria se casado com dois brasileiros em ocasiões diferentes, uma em 2021 e outra em 2024.

Amara Pugh também é mencionada na investigação como responsável pela preparação de contratos utilizados na operação.

As acusações ainda precisam ser analisadas pela Justiça. Os envolvidos são considerados inocentes até que haja uma eventual condenação.

Brasileiros aparecem entre os clientes identificados

A investigação federal menciona pelo menos oito brasileiros que teriam contratado os serviços da organização para tentar regularizar sua situação migratória.

Nos documentos apresentados pelas autoridades, os brasileiros foram identificados apenas por suas iniciais.

Segundo a denúncia, um dos imigrantes procurou agentes da Homeland Security Investigations (HSI), divisão responsável por investigações do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, e admitiu ter pago pelo casamento fraudulento.

O depoimento contribuiu para a apuração sobre o funcionamento da rede e os pagamentos realizados.

As autoridades não divulgaram, nas informações apresentadas, a identidade completa dos brasileiros envolvidos nem detalharam a situação atual de seus processos migratórios.

Contratos eram disfarçados de empréstimos para esconder pagamentos

Um dos detalhes identificados pelos investigadores foi a utilização de contratos que simulavam empréstimos financeiros.

Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, os documentos eram preparados para registrar pagamentos sem mencionar diretamente o casamento fraudulento.

Em uma das operações acompanhadas pelas autoridades, Jennifer Gonzalez foi gravada orientando a assinatura de um contrato e recebendo uma entrada de US$ 3 mil em dinheiro.

Os investigadores afirmam que ela explicou ao cliente que o documento não mencionava o cônjuge porque isso poderia revelar a finalidade ilegal do acordo.

Além do valor pago à organização, os imigrantes realizavam pagamentos mensais de aproximadamente US$ 500 aos americanos que participavam dos casamentos ou a pessoas próximas deles.

Esses pagamentos ajudariam a manter a participação dos envolvidos enquanto os pedidos de imigração eram analisados.

Casais criavam provas para convencer autoridades de imigração

A investigação aponta que a organização não se limitava a promover cerimônias de casamento.

Os participantes também recebiam orientações para produzir documentos e registros que demonstrassem uma suposta vida em comum.

Entre as práticas identificadas estavam a abertura de contas bancárias conjuntas, contratação de seguros de vida e produção de fotografias dos casais em diferentes situações.

Esses materiais eram utilizados nos processos apresentados ao Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS).

Segundo as autoridades, Gonzalez orientava os clientes a aguardar de três a quatro meses para reunir documentos suficientes antes de solicitar os benefícios migratórios.

Os investigadores também identificaram fotografias de casamentos envolvendo cidadãos americanos e imigrantes brasileiros.

Entre os registros mencionados pelo Departamento de Justiça está uma cerimônia realizada em maio de 2018, envolvendo Jessica Tavares e um brasileiro, além de outra em agosto de 2024, envolvendo Erica Daniels e um brasileiro.

Investigação aponta investimentos na República Dominicana

As autoridades federais também investigam o destino do dinheiro obtido com os supostos casamentos fraudulentos.

De acordo com o Departamento de Justiça, Jennifer Gonzalez teria utilizado parte dos recursos para comprar imóveis e investir em negócios na República Dominicana.

Em conversas gravadas durante a investigação, ela teria mencionado propriedades e investimentos realizados naquele país.

A denúncia também aponta possíveis irregularidades no recebimento de benefícios públicos americanos.

Segundo os investigadores, Gonzalez teria recebido mais de US$ 120 mil em benefícios do programa de assistência alimentar SNAP enquanto administrava a operação e adquiria propriedades no exterior.

Os documentos ainda indicam que alguns acusados teriam apresentado informações falsas sobre seu estado civil em solicitações de benefícios públicos.

Esses fatos integram a investigação federal e ainda não representam condenações judiciais.

Seis pessoas foram acusadas pela Justiça federal

O Departamento de Justiça identificou seis pessoas acusadas de participação no esquema: Jennifer Gonzalez, 43 anos; Erica Daniels, 29; Chreise Alejandro, 39; Amara Pugh, 31; Jessica Tavares, 31; e Jaylin Hill, 26.

Cinco dos acusados foram presos durante a operação anunciada em 21 de outubro. Jaylin Hill já cumpria pena em uma prisão estadual por um crime relacionado a arma de fogo.

Os envolvidos respondem a acusações de fraude matrimonial, conspiração para cometer fraude matrimonial, ocultação de imigrantes em situação irregular e conspiração relacionada a essa prática.

Os crimes de fraude matrimonial podem resultar em penas de até cinco anos de prisão. Já as acusações relacionadas à ocultação de imigrantes podem levar a penas máximas de dez anos.

As punições também podem incluir multas de até US$ 250 mil e períodos de liberdade supervisionada.

As penas mencionadas são máximas previstas na legislação e não significam que todos os acusados receberão essas condenações.

Casamento com cidadão americano não garante Green Card automaticamente

Nos Estados Unidos, o casamento legítimo com um cidadão americano pode permitir que o cônjuge estrangeiro solicite a residência permanente, desde que cumpra os requisitos previstos na legislação migratória.

Entretanto, as autoridades analisam se o relacionamento é verdadeiro e se o casamento não foi realizado exclusivamente para obter benefícios de imigração.

O USCIS pode solicitar documentos, realizar entrevistas e investigar possíveis inconsistências nas informações apresentadas.

Casamentos organizados mediante pagamento, sem a intenção de estabelecer uma relação conjugal verdadeira, podem configurar fraude migratória.

Além de consequências criminais, a participação em esquemas fraudulentos pode comprometer pedidos de residência permanente e outros benefícios migratórios.

Investigação continua e pode identificar novos envolvidos

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Um dos contratos exibidos nos documentos do Departamento de Justiça. ( Foto: Reprodução/U.S. Department of Justice (DOJ)

A operação foi conduzida por autoridades federais americanas, incluindo a Homeland Security Investigations e o USCIS, com apoio de outros órgãos responsáveis pela investigação de fraudes.

Segundo o Departamento de Justiça, o caso permanece em investigação.

As autoridades ainda poderão aprofundar a análise dos documentos apresentados em processos de imigração e dos pagamentos realizados ao longo dos anos.

A dimensão da operação chama a atenção pelo tempo de funcionamento e pelos valores cobrados dos imigrantes.

Com uma média estimada de 18 a 20 casamentos por ano e cobranças que chegavam a US$ 40 mil, a rede teria movimentado milhões de dólares ao longo de sua atuação.

Até o momento, os seis acusados não foram condenados pelos crimes descritos na denúncia. Todos têm direito à defesa e são presumidos inocentes até que a Justiça determine o contrário.