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Flávio Bolsonaro participou de churrasco em lancha com lobistas, garotas de programa e recebeu Rolex durante a pandemia, diz revista
Brasil | Política | Eleições 2026

Flávio Bolsonaro participou de churrasco em lancha com lobistas, garotas de programa e recebeu Rolex durante a pandemia, diz revista

Investigação publicada pela revista piauí revela que o senador esteve em um passeio no Lago Paranoá, em Brasília, com empresários interessados em vender vacinas contra a Covid-19 ao governo de Jair Bolsonaro. Segundo a reportagem, o encontro aconteceu em julho de 2020, quando o Brasil registrava mais de mil mortes diárias pela doença.


O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) participou de um churrasco em uma lancha com empresários ligados à negociação da vacina Covaxin, três garotas de programa e pessoas de seu círculo pessoal durante a pandemia de Covid-19. Ao final do encontro, ele teria recebido um relógio Rolex de um dos empresários presentes.

As informações foram reveladas pela revista piauí, em reportagem investigativa publicada em 21 de outubro de 2026, assinada pelos jornalistas João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires.

De acordo com a investigação, o passeio aconteceu em 17 de julho de 2020, no Lago Paranoá, em Brasília, e foi organizado por empresários da Precisa Medicamentos, companhia que buscava negociar o fornecimento de vacinas contra a Covid-19 ao governo federal.

Os empresários envolvidos eram Francisco Maximiano, proprietário da Precisa Medicamentos, e Danilo Berndt Trento, então diretor institucional da empresa.

Segundo a piauí, o objetivo do encontro era fortalecer a aproximação dos empresários com Flávio Bolsonaro, filho mais velho do então presidente Jair Bolsonaro.

A reportagem afirma que três garotas de programa foram levadas de São Paulo para participar da confraternização. Também relata que o senador esteve acompanhado de mulheres na cabine da embarcação.

A investigação ganha relevância pelo contexto em que ocorreu: enquanto o país enfrentava uma das fases mais graves da crise sanitária, empresários interessados em negócios com o governo federal promoviam encontros privados com integrantes do círculo político do presidente.

Empresários viajaram de jatinho para organizar encontro em Brasília

Segundo a reconstrução publicada pela piauí, a viagem começou na noite de 16 de julho de 2020, quando um jato executivo Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino à capital federal.

A aeronave transportava Danilo Trento, Francisco Maximiano, o agente de viagens Raphael Barão e três mulheres identificadas pela revista como garotas de programa.

Barão, proprietário da Barão Turismo, era responsável pela organização de viagens e compromissos dos empresários.

No dia seguinte, o grupo se reuniu em uma lancha de aproximadamente 20 metros de comprimento no Lago Paranoá.

Flávio Bolsonaro chegou acompanhado de Alexandre Santini, que, na época, era seu sócio em uma franquia da Kopenhagen, no Rio de Janeiro.

Durante o passeio, a embarcação fez uma parada no restaurante flutuante Alô Grau, onde foram compradas comidas e bebidas.

Conforme os documentos analisados pela piauí, a conta chegou a R$ 1.949 e foi paga por Raphael Barão.

O encontro terminou por volta das 15 horas.

Revista relata que Flávio Bolsonaro entrou na cabine com garotas de programa

Uma das revelações da reportagem envolve o comportamento dos participantes durante o passeio.

De acordo com uma pessoa que estava na embarcação e conversou com a piauí sob condição de anonimato, Flávio Bolsonaro desceu à cabine da lancha acompanhado de uma das mulheres.

A mesma fonte relatou que outra mulher também esteve na cabine acompanhada do senador durante a confraternização.

A revista descreve o encontro como parte de uma prática de aproximação entre empresários, intermediários de interesses privados e autoridades públicas.

A investigação também ouviu um ex-assessor parlamentar que afirmou ter participado de encontros semelhantes em Brasília, incluindo ocasiões em que Flávio Bolsonaro estaria presente.

Essas informações são relatos atribuídos às fontes ouvidas pela revista. A reportagem não apresenta, nos trechos consultados, uma confirmação independente sobre a natureza de eventuais relações íntimas ocorridas durante o passeio.

Flávio Bolsonaro teria recebido relógio Rolex de empresário ligado à Covaxin

Outro ponto central da investigação é a entrega de um relógio de luxo ao senador.

Segundo a piauí, quando a lancha já estava atracada, Danilo Trento retirou do próprio pulso um Rolex com pulseira prateada e colocou o acessório no braço de Flávio Bolsonaro.

A revista afirma que o parlamentar deixou a embarcação usando o relógio.

Trento era diretor institucional da Precisa Medicamentos, empresa que buscava ampliar seus negócios com o governo federal e participaria posteriormente das negociações envolvendo a vacina Covaxin.

A reportagem não informa o valor exato do relógio entregue naquele encontro.

Em setembro de 2026, outra investigação, publicada pelo jornalista Rodrigo Rangel no site PlatôBR, relatou um episódio envolvendo um Rolex modelo Submariner Date, avaliado em aproximadamente R$ 305 mil, que teria sido comprado pelo advogado Alan Belaciano.

Não há confirmação de que os dois relatos se refiram ao mesmo relógio.

A entrega de presentes de alto valor a agentes públicos, especialmente quando envolve pessoas interessadas em contratos governamentais, levanta questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses. Entretanto, o relato do presente, isoladamente, não comprova a prática de corrupção.

Empresários estavam envolvidos na negociação de vacinas contra a Covid-19

A Precisa Medicamentos atuava como intermediária da farmacêutica indiana Bharat Biotech nas negociações para fornecer a vacina Covaxin ao Ministério da Saúde.

O contrato, que posteriormente se tornou alvo de investigações, previa a aquisição de 20 milhões de doses por aproximadamente R$ 1,6 bilhão.

A negociação foi questionada durante a CPI da Pandemia, realizada em 2021, após denúncias de possíveis irregularidades e relatos de pressão sobre servidores públicos.

Segundo a piauí, o contrato previa um preço de aproximadamente R$ 80 por dose, superior aos valores apresentados em determinadas negociações envolvendo outros fabricantes de vacinas naquele período.

O acordo acabou cancelado sem que o governo brasileiro realizasse pagamentos ou recebesse doses da Covaxin.

Durante os trabalhos da CPI, Flávio Bolsonaro defendeu publicamente a Precisa Medicamentos e elogiou Emanuela Medrades, então diretora da empresa, por sua atuação nas negociações.

O relatório final da comissão recomendou o indiciamento de 78 pessoas, incluindo Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.

É importante destacar que a recomendação de indiciamento feita por uma comissão parlamentar não equivale a uma condenação judicial.

Flávio Bolsonaro ajudou empresário a conseguir reunião com presidente do BNDES

A investigação da piauí também apresenta um episódio ocorrido três meses depois do passeio de lancha.

Em outubro de 2020, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião virtual entre Francisco Maximiano, outro executivo ligado ao empresário e Gustavo Montezano, então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O encontro tinha como objetivo discutir possíveis linhas de financiamento para um empreendimento no setor de telecomunicações.

Segundo a revista, o senador intermediou o contato entre os empresários e a presidência do banco público.

Na época, o BNDES confirmou a realização de reuniões, mas informou que nenhum financiamento havia sido contratado.

Flávio Bolsonaro também se pronunciou publicamente sobre o episódio, reconhecendo que havia solicitado ao presidente do banco que ouvisse a proposta apresentada por Maximiano.

O senador afirmou que a iniciativa envolvia um projeto para ampliar o acesso à internet nas regiões Norte e Nordeste e negou manter relações comerciais ou financeiras com o empresário.

A reportagem da piauí relaciona o episódio à proximidade entre o parlamentar e integrantes da Precisa Medicamentos, mas não apresenta comprovação de que a reunião tenha resultado na liberação de recursos públicos.

Investigação reuniu documentos, registros de voos e depoimentos

Para reconstruir os acontecimentos de julho de 2020, os jornalistas da piauí utilizaram diferentes fontes de informação.

A equipe entrevistou uma pessoa que estava na lancha, ouviu pilotos, assessores parlamentares, um ex-deputado e uma mulher que relatou conhecer a dinâmica de encontros semelhantes.

Também foram analisados documentos obtidos por meio de quebras de sigilo relacionadas às investigações parlamentares.

Os registros de deslocamentos aéreos foram comparados com informações de plataformas de rastreamento de voos.

Segundo a revista, a Barão Turismo, empresa responsável por organizar viagens dos empresários, recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de companhias ligadas ao grupo econômico da Precisa Medicamentos em 2020.

Essas relações comerciais também despertaram questionamentos durante os trabalhos da CPI da Pandemia.

A utilização de diferentes documentos e depoimentos permitiu à revista reconstruir horários, deslocamentos e a identidade de participantes do encontro.

Entretanto, parte das informações sobre o que ocorreu dentro da embarcação depende de relatos de fontes que tiveram suas identidades preservadas.

Passeio aconteceu quando o Brasil registrava mais de mil mortes por dia

O encontro ocorreu durante um dos períodos mais graves da pandemia de Covid-19 no Brasil.

De acordo com os dados apresentados pela piauí, o país registrou 1.299 mortes pela doença em 16 de julho de 2020, véspera do passeio.

Naquele momento, o número acumulado de vítimas já ultrapassava 76 mil.

No dia seguinte, quando ocorreu a confraternização, o Brasil registrou outras 1.110 mortes, segundo o levantamento do consórcio de veículos de imprensa utilizado na época.

Enquanto hospitais enfrentavam a pressão provocada pelo aumento das internações, empresas farmacêuticas e governos negociavam o desenvolvimento, a compra e o fornecimento de vacinas.

A presença de empresários interessados em contratos públicos em um encontro privado com o filho do então presidente tornou-se o principal ponto de interesse público da investigação.

O que dizem Flávio Bolsonaro e os empresários citados?

A revista piauí informou que procurou Flávio Bolsonaro para comentar as revelações, mas não recebeu uma manifestação até o fechamento da reportagem publicada em 21 de outubro.

Danilo Trento também foi procurado. Segundo os jornalistas, ele inicialmente respondeu a uma mensagem, mas interrompeu a comunicação após receber informações sobre o assunto da investigação, incluindo os voos, o passeio e o relógio Rolex.

Os advogados de Francisco Maximiano foram contatados por WhatsApp e e-mail, mas também não responderam até a publicação.

Em reportagem divulgada em 22 de outubro, a CartaCapital informou que procurou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro para solicitar esclarecimentos.

Até o momento das publicações consultadas, não havia resposta divulgada pela campanha sobre as novas revelações.

As informações sobre o churrasco, a presença das garotas de programa e a entrega do relógio são atribuídas à investigação jornalística da piauí. A reportagem não estabelece, por si só, a existência de condenação criminal relacionada ao passeio.

A divulgação ocorre às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, em que Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República com Luiz Inácio Lula da Silva (PT).