Uma comissão independente de investigação vinculada ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) concluiu que a Rússia cometeu crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante sua ofensiva militar contra a Ucrânia. O relatório, divulgado na segunda-feira, 26 de outubro, também aponta o envolvimento de cidadãos brasileiros em esquemas de recrutamento para as forças armadas russas.
Segundo a investigação, militares russos atacaram deliberadamente instalações responsáveis pelo fornecimento de eletricidade e aquecimento à população ucraniana, provocando graves consequências humanitárias durante o inverno de 2025 e 2026.
A comissão também encontrou evidências de que homens de 29 países, incluindo o Brasil, foram recrutados por meio de falsas ofertas de emprego, promessas financeiras e práticas coercitivas para participar dos combates na Ucrânia.
As conclusões foram apresentadas após a análise de depoimentos de vítimas, informações de autoridades públicas, profissionais de saúde e organizações civis.
A Rússia rejeitou as acusações e afirmou que não reconhece a autoridade da comissão responsável pelo documento.
Ataques deixaram milhões de pessoas sem energia e aquecimento
A investigação identificou um padrão de ataques contra a infraestrutura energética da Ucrânia, especialmente durante os meses mais frios do ano.
Segundo os investigadores, as operações militares atingiram instalações essenciais para o fornecimento de eletricidade, aquecimento e outros serviços básicos utilizados pela população civil.
As consequências foram particularmente graves durante o inverno, quando milhões de moradores enfrentaram temperaturas abaixo de zero sem condições adequadas de aquecer suas residências.
O relatório aponta que os ataques não foram incidentes isolados. De acordo com a comissão, as operações ocorreram de maneira coordenada e tinham como consequência previsível a privação de serviços essenciais à sobrevivência da população.
Para os investigadores, o caráter deliberado dessas ações e o sofrimento provocado entre civis fundamentam a conclusão de que foram cometidos crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Hospitais, idosos e pacientes ficaram em situação de risco
A falta de energia afetou diretamente o funcionamento de hospitais e unidades de atendimento médico.
Segundo a ONU, pacientes que dependiam de equipamentos elétricos para tratamentos essenciais enfrentaram riscos adicionais em decorrência das interrupções no fornecimento de energia.
Profissionais de saúde também relataram atendimentos de pessoas com hipotermia e lesões provocadas pela exposição prolongada ao frio dentro das próprias residências.
Idosos e pessoas com mobilidade reduzida enfrentaram dificuldades para chegar a abrigos durante alertas de ataques aéreos.
A comissão ouviu 255 ucranianos que enfrentaram as condições do inverno de 2025 e 2026 em Kiev e outras oito regiões do país.
Os investigadores também reuniram informações de médicos, representantes governamentais e organizações humanitárias para avaliar a extensão dos danos à população.
Brasileiros aparecem entre estrangeiros recrutados para a guerra
Além das denúncias sobre ataques à infraestrutura civil, o relatório dedica atenção aos métodos utilizados para recrutar cidadãos estrangeiros para as forças armadas russas.
A comissão examinou informações relacionadas a pessoas de 48 países e identificou evidências de recrutamento por engano ou coerção envolvendo cidadãos de 29 nacionalidades.
O Brasil aparece expressamente entre os países mencionados.
Segundo a investigação, os recrutados eram principalmente homens entre 18 e 60 anos, muitos deles provenientes de comunidades economicamente vulneráveis.
Agentes de recrutamento apresentavam oportunidades de trabalho na Rússia, frequentemente acompanhadas de promessas de salários elevados e melhores condições de vida.
Entretanto, ao chegar ao país, parte desses homens descobria que seria encaminhada para atividades militares relacionadas à guerra na Ucrânia.
A comissão concluiu que esses procedimentos, quando realizados mediante fraude ou coerção, constituem graves violações dos direitos humanos e podem configurar tráfico de pessoas.
Falsas promessas de emprego levavam estrangeiros ao front de batalha
De acordo com o relatório, intermediários que atuavam em diferentes países se apresentavam como representantes de empresas legítimas e, em alguns casos, afirmavam possuir vínculos com autoridades russas.
Esses agentes organizavam documentos de viagem, vistos e deslocamentos internacionais.
Ao chegar à Rússia, os estrangeiros eram pressionados a assinar contratos redigidos em russo, idioma que muitos não compreendiam.
Segundo os investigadores, alguns recrutados só descobriam que haviam ingressado nas forças armadas quando já estavam sendo preparados para participar dos combates.
A comissão também identificou situações em que passaportes e telefones eram confiscados, dificultando a comunicação com familiares e a possibilidade de retorno ao país de origem.
Em outros casos, pagamentos e bonificações prometidos aos recrutados teriam sido desviados por intermediários ou comandantes militares.
A investigação aponta que essas práticas comprometem direitos fundamentais, incluindo a liberdade, a integridade física e o direito à vida.
Relatório não informa quantos brasileiros foram recrutados
Embora o Brasil esteja entre os 29 países mencionados, o relatório divulgado não apresenta um número específico de brasileiros recrutados por meio desses esquemas.
Também não foram divulgadas identidades, cidades de origem ou informações individualizadas sobre os brasileiros envolvidos.
A inclusão do país na investigação significa que a comissão encontrou evidências relacionadas a cidadãos brasileiros, mas não permite concluir que todos os brasileiros que participaram da guerra tenham sido vítimas de recrutamento fraudulento.
A distinção é importante porque o documento examina especificamente situações envolvendo engano, exploração e coerção.
A Anistia Internacional também publicou uma investigação sobre o recrutamento de estrangeiros pela Rússia, identificando relatos de pessoas atraídas por promessas de empregos civis, salários elevados e benefícios migratórios que posteriormente foram encaminhadas para atividades militares.
Investigadores apontam responsabilidade de autoridades russas
A comissão também examinou a cadeia de comando relacionada aos ataques contra instalações de energia da Ucrânia.
Segundo o documento, há elementos que relacionam o planejamento e a supervisão das operações a autoridades militares de alto escalão da Rússia.
Entre os nomes mencionados estão o ex-ministro da Defesa Sergei Shoigu, seu sucessor Andrey Belousov e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Valery Gerasimov.
O relatório também faz referência a declarações do presidente Vladimir Putin sobre operações contra a infraestrutura energética ucraniana.
As conclusões da comissão constituem resultados de uma investigação internacional e não equivalem, por si só, a uma condenação criminal individual.
O Tribunal Penal Internacional já havia emitido mandados de prisão relacionados a acusações de crimes de guerra envolvendo autoridades russas.
Rússia rejeita acusações apresentadas pela ONU
A missão diplomática russa junto às Nações Unidas contestou as conclusões da investigação.
Segundo a Associated Press, representantes de Moscou afirmaram que o governo russo não reconhece o mandato da comissão e alegaram que suas conclusões utilizam informações falsificadas.
O governo russo sustenta que suas operações militares têm como alvo instalações militares ou estruturas utilizadas em benefício das Forças Armadas ucranianas.
A comissão, por outro lado, concluiu que os ataques investigados atingiram serviços indispensáveis à população civil e que seus efeitos humanitários eram conhecidos pelas autoridades responsáveis.
O presidente da comissão, Erik Møse, também alertou para os riscos associados à continuidade dos ataques contra instalações energéticas com a aproximação de um novo inverno.
Investigação amplia pressão internacional sobre a Rússia
A divulgação do relatório acrescenta novas conclusões às investigações internacionais sobre violações cometidas desde o início da invasão russa em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
O documento aborda duas questões distintas: os ataques contra serviços essenciais à população ucraniana e a utilização de métodos fraudulentos ou coercitivos para recrutar estrangeiros.
A presença do Brasil entre os países citados amplia a relevância da investigação para autoridades e famílias brasileiras, especialmente diante da possibilidade de cidadãos terem sido levados ao conflito sem compreender as condições reais de seu recrutamento.
O relatório não informa quantos brasileiros permanecem na região de combate nem apresenta um balanço de possíveis vítimas brasileiras.
As conclusões deverão integrar as discussões internacionais sobre responsabilização por violações dos direitos humanos e proteção de civis e estrangeiros envolvidos na guerra.
A comissão ressalta que os fatos investigados demonstram não apenas os impactos diretos das operações militares sobre a população ucraniana, mas também as consequências do conflito para pessoas recrutadas em diferentes partes do mundo.
