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Pais são deportados nos EUA e filhos adolescentes precisam abandonar estudos para criar os irmãos
Estados Unidos | Imigração

Pais são deportados nos EUA e filhos adolescentes precisam abandonar estudos para criar os irmãos

Jovens americanos estão assumindo responsabilidades de adultos após a deportação dos pais imigrantes. Casos na Flórida mostram adolescentes trabalhando para sustentar a família e cuidando de irmãos menores.


Uma ida à loja para comprar tênis escolares terminou com uma família separada e uma jovem de 18 anos responsável por criar os próprios irmãos nos Estados Unidos. O caso de Wendy Domingo, moradora da Flórida, revela uma realidade enfrentada por famílias de imigrantes após operações de fiscalização migratória: filhos que são cidadãos americanos permanecem no país enquanto seus pais são deportados.

Segundo reportagem da ABC News, organizações de apoio a imigrantes relatam um aumento no número de crianças e adolescentes que ficam sob os cuidados de irmãos mais velhos depois que os pais são retirados dos Estados Unidos.

Pesquisas citadas por essas organizações indicam que mais de 4 milhões de famílias americanas possuem integrantes com diferentes situações migratórias, incluindo cidadãos dos Estados Unidos e pessoas sem cidadania ou autorização de residência.

Para muitos desses jovens, a separação significa interromper planos de estudar, começar a trabalhar mais cedo e assumir responsabilidades financeiras e familiares que antes pertenciam aos pais.

Família foi parada pela Patrulha de Fronteira a caminho de uma loja

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Em agosto, agentes de imigração detiveram os pais de quatro crianças e adolescentes com cidadania americana enquanto a família estava a caminho de uma loja para comprar sapatos. Foto: Arquivo pessoal de Wendy Domingo.

No dia 9 de agosto, Wendy Domingo dirigia com os pais e os quatro irmãos mais novos para comprar um par de tênis para um deles, antes do início do ano letivo.

Era a primeira vez em meses que todos viajavam juntos no mesmo carro.

A família costumava evitar deslocamentos em grupo porque os pais, Abraham Domingo e Maria Leiva, não possuíam situação migratória regularizada e temiam ser detidos.

Durante o trajeto, Wendy percebeu que uma viatura da Patrulha de Fronteira americana estava seguindo o veículo.

A jovem, que havia completado 18 anos no dia anterior, contou à ABC News que nunca havia sido parada pela polícia e ficou assustada com a situação.

Em um vídeo compartilhado com a emissora, Wendy pergunta ao agente por que havia sido abordada. O policial responde que a placa do automóvel estava registrada em nome de uma pessoa que não era cidadã americana.

Pouco depois, os agentes retiraram os pais do veículo e os detiveram, enquanto os irmãos mais novos choravam dentro do carro.

As imagens mostram Wendy abraçando o pai e lamentando a decisão de todos terem saído juntos de casa.

Durante a abordagem, um agente afirmou que os pais não seriam deportados naquele momento e que receberiam documentos para comparecer perante um juiz de imigração.

Entretanto, o desfecho foi diferente.

Pais foram enviados à Guatemala e filha assumiu a criação dos irmãos

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Wendy Domingo abraça o pai momentos antes de ele ser detido pelas autoridades de imigração dos Estados Unidos. Foto: Arquivo pessoal de Wendy Domingo.

Após a detenção, Abraham Domingo e Maria Leiva foram levados inicialmente para instalações de imigração na Flórida e posteriormente transferidos para centros de detenção separados.

Maria acabou deportada para a Guatemala. Abraham decidiu retornar voluntariamente ao país para evitar uma permanência prolongada sob custódia migratória.

Wendy e os irmãos, que possuem cidadania americana, permaneceram nos Estados Unidos.

A jovem precisou recorrer a amigos da família e integrantes da comunidade religiosa para conseguir ajuda logo após a detenção dos pais.

Segundo ela, seu pai havia atuado durante três anos como coordenador de atividades na igreja, onde a família mantinha fortes vínculos.

A rede de apoio ajudou os irmãos a enfrentar os primeiros dias sem os pais, mas a rotina familiar mudou completamente.

Cerca de um mês depois, Wendy decidiu enviar o irmão mais novo para a Guatemala, com auxílio de uma organização especializada em reunificação familiar.

Atualmente, ela trabalha em um hotel para sustentar os outros três irmãos, de 16, 14 e 12 anos.

Jovem trabalha até meia-noite para sustentar a família

Aos 18 anos, Wendy passou a assumir despesas domésticas, organizar a rotina dos irmãos e garantir que todos continuassem recebendo os cuidados necessários.

Em alguns dias, seu expediente no hotel se estende até a meia-noite.

Quando isso acontece, sua irmã mais nova precisa preparar refeições e cuidar dos demais integrantes da família.

Wendy contou à ABC News que a irmã está aprendendo a cozinhar porque todos precisaram assumir novas responsabilidades.

A ausência dos pais também transformou o ambiente da casa.

Antes, Wendy estava acostumada a voltar da escola ou do trabalho e encontrar a mãe. Agora, segundo ela, a residência ficou silenciosa.

A jovem afirmou que seus pais haviam construído uma vida nos Estados Unidos pensando no futuro dos filhos e dos netos.

A separação, segundo Wendy, interrompeu os planos familiares em questão de minutos.

Outra jovem deixou a faculdade para assumir empresa dos pais deportados

A reportagem também apresenta a história de Eliza Perez, outra jovem da Flórida que precisou reorganizar a vida depois que os pais foram deportados.

Os dois foram detidos dois dias antes do Dia de Ação de Graças do ano passado, após viverem nos Estados Unidos por quase três décadas.

Eles haviam deixado a Guatemala ainda jovens e construído uma empresa de serviços de jardinagem e manutenção de áreas verdes.

Com a deportação, Eliza, então com 21 anos, assumiu a administração do negócio e os cuidados dos três irmãos mais novos, atualmente com 18, 16 e 14 anos.

Para manter a família financeiramente, ela precisou adiar os estudos universitários e abandonar temporariamente seus planos profissionais.

A jovem relatou que desejava concluir a formação acadêmica e trabalhar em um escritório, mas passou a enfrentar longas jornadas ao ar livre para manter a empresa dos pais funcionando.

O caso mostra como a deportação pode afetar não apenas a situação migratória dos adultos, mas também as oportunidades educacionais e profissionais de filhos que nasceram nos Estados Unidos.

Organização já ajudou 57 crianças a reencontrar familiares deportados

O Guatemalan-Maya Center, organização que presta assistência a famílias imigrantes, afirma que tem registrado um aumento na procura por ajuda de crianças que permaneceram nos Estados Unidos após a deportação dos pais.

Mariana Blanco, diretora de operações da entidade, explicou à ABC News que a organização passou a preparar famílias para possíveis separações diante do endurecimento das operações migratórias durante o segundo governo de Donald Trump.

Segundo Blanco, algumas famílias optam por enviar os filhos menores ao país de origem dos pais, enquanto os irmãos mais velhos permanecem nos Estados Unidos.

A entidade informou que, durante o atual governo, já ajudou 57 crianças a se reunirem com familiares deportados para Guatemala, Colômbia e El Salvador.

A organização também auxilia famílias na preparação de viagens, documentação e outras necessidades relacionadas à reunificação.

Para Blanco, o impacto mais profundo dessas separações recai sobre as crianças, que precisam lidar com a ausência dos pais e com mudanças repentinas na rotina.

Governo Trump nega que suas operações separem famílias

Procurado pela ABC News, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) afirmou que o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) não separa famílias nem deporta cidadãos americanos.

Segundo o órgão, pais que enfrentam processos de remoção podem optar por levar os filhos ou indicar uma pessoa de confiança para assumir seus cuidados nos Estados Unidos.

O DHS afirmou que Abraham Domingo e Maria Leiva entraram irregularmente no país e que os dois retornaram à Guatemala.

A agência também declarou que os pais decidiram deixar os filhos menores sob os cuidados da filha adulta.

O governo mencionou ainda que Abraham havia enfrentado acusações anteriores de violência doméstica.

A ABC News confirmou a existência dessas acusações, apresentadas em 2024, mas informou que elas foram posteriormente retiradas.

A versão oficial do governo contrasta com os relatos das famílias e das organizações de apoio, que destacam as dificuldades enfrentadas por crianças e adolescentes após a saída dos pais do território americano.

Filhos americanos também sofrem consequências das deportações

Embora possuam cidadania dos Estados Unidos e o direito de permanecer no país, crianças de famílias com diferentes situações migratórias podem enfrentar consequências diretas das medidas de fiscalização.

A saída dos pais pode provocar perda de renda familiar, mudanças de residência, interrupção de estudos e necessidade de reorganizar os cuidados com irmãos menores.

Especialistas e organizações de assistência ressaltam que essas situações também podem gerar impactos emocionais, especialmente quando a separação ocorre de maneira repentina.

Nos casos apresentados pela ABC News, as duas jovens permaneceram nos Estados Unidos, mas precisaram assumir funções que normalmente seriam desempenhadas pelos pais.

Enquanto o governo federal defende suas políticas de fiscalização e remoção de imigrantes sem autorização de permanência, entidades comunitárias buscam alternativas para apoiar as crianças que ficam no país.

Para Wendy Domingo, a principal mudança foi deixar de ser apenas a irmã mais velha e se tornar responsável pela sobrevivência e pela rotina da família.

Aos 18 anos, ela agora trabalha para manter a casa e cuidar dos irmãos, enquanto tenta lidar com a distância dos pais e com um futuro muito diferente daquele que a família havia planejado.