A descoberta de 11 corpos em diferentes regiões da cidade de São Paulo, ao longo de 47 dias, mobilizou as autoridades de segurança pública e provocou uma onda de especulações nas redes sociais.
Os casos chamaram a atenção pelas circunstâncias em que algumas vítimas foram encontradas. Há registros de cadáveres abandonados em sacos, corpos esquartejados, vítimas decapitadas e sinais de carbonização.
A sequência de descobertas alimentou rumores sobre a possível atuação de um assassino em série na capital paulista. Entretanto, a polícia descarta, até o momento, essa hipótese e trabalha com outras linhas de investigação, incluindo a possibilidade de crimes relacionados a organizações criminosas.
Uma das suspeitas envolve o chamado “tribunal do crime”, expressão utilizada para descrever punições e execuções determinadas por integrantes de facções criminosas, fora de qualquer procedimento legal.
Apesar das semelhanças entre algumas ocorrências, ainda não há confirmação de que todos os homicídios estejam relacionados ou tenham sido cometidos pelos mesmos responsáveis.
Corpos foram encontrados em diferentes regiões da capital
As 11 descobertas ocorreram ao longo de 47 dias, em pontos distintos de São Paulo.
A forma como algumas vítimas foram abandonadas chamou a atenção dos investigadores, especialmente nos casos que envolveram mutilação, uso de sacos para ocultação dos cadáveres e sinais de violência extrema.
As circunstâncias levantam a possibilidade de que determinados corpos tenham sido transportados e deixados em locais diferentes daqueles onde ocorreram as mortes.
No entanto, essa hipótese precisa ser confirmada individualmente por meio de perícias e demais elementos das investigações.
O trabalho da polícia envolve a identificação das vítimas, a reconstrução dos últimos deslocamentos e a busca por imagens de câmeras de segurança, testemunhas e outros indícios que possam esclarecer os crimes.
11º corpo foi encontrado após abordagem policial na Marginal Tietê
A ocorrência mais recente foi registrada na madrugada desta quarta-feira, 21 de outubro, nas proximidades da Marginal Tietê, na zona norte da capital paulista.
Segundo a Polícia Militar, agentes perceberam dois homens manipulando sacos perto do acesso à Avenida Educador Paulo Freire. Durante a abordagem, houve troca de tiros, e um dos suspeitos, identificado como Carlos Alberto Furtado, de 47 anos, morreu.
O segundo homem conseguiu fugir.
No local, os policiais encontraram partes do corpo de uma mulher, incluindo a cabeça e membros. A identidade da vítima ainda não havia sido confirmada.
A polícia também apreendeu um revólver calibre 38 com a numeração raspada.
O Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) investiga a morte da mulher. Um inquérito policial militar foi instaurado para apurar as circunstâncias do confronto, e as imagens das câmeras corporais dos policiais serão analisadas.
A descoberta se soma à sequência de casos investigados desde setembro, embora ainda não esteja comprovada uma ligação entre eles.
Onde os corpos foram encontrados em São Paulo?
Levantamentos publicados pela imprensa mostram que as primeiras nove ocorrências investigadas nessa sequência foram registradas entre 5 de setembro e 2 de outubro.
Os registros ocorreram em diferentes regiões da capital:
Data | Região |
|---|---|
5 de setembro | Zona sul |
10 de setembro | Zona leste — duas ocorrências |
13 de setembro | Zona leste |
19 de setembro | Zona norte |
21 de setembro | Zona oeste |
25 de setembro | Zona sul |
30 de setembro | Zona sul |
2 de outubro | Zona leste |
21 de outubro | Marginal Tietê, zona norte |
O levantamento anterior também identificou uma ocorrência investigada separadamente em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.
As informações disponíveis não permitem detalhar com segurança o endereço e as circunstâncias de todos os 11 casos. Por isso, a relação acima apresenta os registros cujas datas e regiões foram identificadas nas reportagens consultadas.
Polícia investiga mortes por vingança, dívidas e retaliações
As investigações conduzidas pelo DHPP apontam para diferentes possíveis motivações.
Entre as hipóteses estão conflitos relacionados a dívidas de drogas, desentendimentos pessoais, vinganças e punições determinadas por integrantes de organizações criminosas.
A diretora do DHPP, Ivalda Aleixo, explicou anteriormente que colocar cadáveres em sacos ou tecidos pode facilitar seu transporte e dificultar a identificação das vítimas e a localização dos responsáveis.
A polícia também considera a possibilidade de que alguns assassinatos tenham ocorrido em locais diferentes daqueles onde os corpos foram abandonados.
Em 14 de outubro, a Justiça decretou a prisão temporária de três suspeitos investigados por envolvimento em mortes com características de execução. Na ocasião, policiais também cumpriram mandados de busca e apreensão.
Uma das linhas de investigação é a possível participação dos suspeitos em ações relacionadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), hipótese que ainda depende de comprovação.
O que é o chamado tribunal do crime?
O termo é utilizado para descrever uma prática atribuída a organizações criminosas, nas quais integrantes de facções impõem punições a pessoas acusadas de violar regras internas, contrair dívidas ou entrar em conflito com membros do grupo.
Essas punições podem incluir agressões, ameaças e execuções.
Não se trata de um tribunal reconhecido pela Justiça brasileira, mas de uma forma ilegal de controle e violência exercida por grupos criminosos.
A hipótese de participação dessas estruturas em parte das mortes está sendo investigada. Isso não significa que todas as vítimas tenham ligação com atividades criminosas nem que todos os casos estejam relacionados ao PCC.
Por que a polícia descarta a hipótese de um serial killer?
A semelhança entre a forma como alguns cadáveres foram encontrados levou usuários das redes sociais a especular sobre a atuação de um único assassino.
Entretanto, segundo os investigadores, os casos apresentam diferenças importantes.
As vítimas possuem perfis distintos, os crimes ocorreram em regiões diferentes e as possíveis motivações não seguem necessariamente um mesmo padrão.
Além disso, as investigações indicam a participação de suspeitos diferentes em determinadas ocorrências.
Por essas razões, a Polícia Civil não trabalha atualmente com a hipótese de um assassino em série responsável por todas as mortes.
A existência de métodos semelhantes para ocultar cadáveres, isoladamente, não comprova que os homicídios tenham sido praticados pela mesma pessoa ou organização.
Identificação das vítimas e buscas por suspeitos continuam
O trabalho da polícia agora se concentra na identificação das vítimas ainda desconhecidas, na análise de laudos periciais e na localização dos responsáveis.
As equipes também procuram esclarecer se existe alguma conexão entre determinados crimes e identificar possíveis mandantes.
A ocorrência mais recente, na Marginal Tietê, acrescenta uma nova investigação ao conjunto de mortes violentas registrado na cidade.
Embora a sequência de descobertas tenha provocado preocupação, as autoridades ressaltam que cada homicídio precisa ser esclarecido com base em provas, sem atribuir automaticamente todos os casos a um mesmo autor.
