O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma grave crise política e financeira provocada pelo colapso do banco digital Ueno, instituição que possui aproximadamente 3 milhões de clientes.
A decisão foi anunciada após o Congresso iniciar discussões sobre um possível impeachment e depois que importantes lideranças do Partido Colorado, legenda do presidente, retiraram seu apoio ao governo.
Em pronunciamento gravado, Peña afirmou que estava deixando o cargo em nome da estabilidade do país, da paz social e da preservação das instituições democráticas.
O pedido formal de renúncia foi encaminhado ao Congresso paraguaio, responsável por analisar os procedimentos necessários para efetivar sua saída.
Aos 47 anos, Santiago Peña encerra uma trajetória presidencial iniciada em agosto de 2023, quando assumiu o governo como um dos presidentes mais jovens da história democrática do Paraguai.
Quem é Santiago Peña?
Santiago Peña Palacios nasceu em 16 de novembro de 1978, em Assunção, capital do Paraguai.
Filho de uma família de classe média, demonstrou interesse pela economia e pela administração pública ainda jovem.
Sua vida pessoal também foi marcada por responsabilidades precoces. Aos 17 anos, tornou-se pai pela primeira vez.
Peña é casado com a arquiteta Leticia Ocampos, com quem tem dois filhos, Gonzalo e Constanza.
Antes de ingressar definitivamente na política, construiu uma carreira como economista, trabalhando em instituições financeiras nacionais e internacionais.
Sua formação técnica foi um dos principais elementos utilizados durante a campanha presidencial de 2023, quando se apresentou como um candidato preparado para administrar a economia paraguaia.
Estudou economia no Paraguai e fez pós-graduação nos Estados Unidos
Peña cursou Economia na Universidade Católica Nossa Senhora da Assunção, uma das instituições de ensino superior mais tradicionais do Paraguai.
Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos, onde concluiu um mestrado em Administração Pública na Universidade Columbia, em Nova York.
A formação internacional contribuiu para sua carreira em instituições financeiras.
Entre 2000 e 2009, trabalhou no Banco Central do Paraguai, atuando em departamentos relacionados a estudos monetários, operações financeiras e política econômica.
Em 2009, ingressou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, onde trabalhou com análises econômicas relacionadas a países africanos.
A experiência no FMI ampliou sua projeção profissional e o aproximou de debates internacionais sobre desenvolvimento econômico, política fiscal e estabilidade financeira.
Foi ministro da Fazenda antes de chegar à Presidência
Após retornar ao Paraguai, Peña voltou a atuar no setor público e integrou a direção do Banco Central.
Em janeiro de 2015, aos 36 anos, foi nomeado ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes.
No cargo, passou a participar diretamente da elaboração de políticas econômicas e da administração das finanças públicas.
Sua atuação fortaleceu sua relação política com Cartes, empresário e uma das principais lideranças do Partido Colorado.
Peña deixou o ministério em 2017 para disputar a indicação presidencial do partido, mas foi derrotado nas eleições internas por Mario Abdo Benítez.
Em 2023, voltou a concorrer e venceu a eleição presidencial, derrotando Efraín Alegre, candidato de uma coalizão de oposição.
Assumiu o governo em 15 de agosto daquele ano, com mandato previsto originalmente até 2028.
Aliado de Trump, Peña defendia aproximação com os Estados Unidos
Identificado com a direita conservadora, Santiago Peña manteve relações próximas com setores republicanos dos Estados Unidos.
Durante seu governo, procurou fortalecer a cooperação econômica, diplomática e de segurança entre Assunção e Washington.
Peña também demonstrou alinhamento com Donald Trump em temas internacionais e defendeu a ampliação das relações comerciais entre os dois países.
Na política regional, adotou posições favoráveis ao fortalecimento das relações com Taiwan, mantendo o Paraguai como um dos poucos países sul-americanos que reconhecem diplomaticamente a ilha.
Sua administração também buscou atrair investimentos estrangeiros e apresentar o Paraguai como um destino de estabilidade econômica na América do Sul.
Crise no Ueno Bank provocou pressão sobre o governo
O principal fator que desencadeou a crise política foi a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país.
A instituição atendia aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos relacionados à previdência social.
As autoridades financeiras identificaram problemas de solvência e suspeitas de irregularidades envolvendo empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo controlador.
Com a suspensão das operações, milhares de correntistas ficaram sem acesso imediato ao dinheiro depositado, provocando protestos e preocupação em diferentes regiões do país.
O Ministério Público iniciou investigações e determinou a detenção de oito pessoas ligadas à administração do banco.
Peña passou a ser questionado porque havia sido acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição, até março de 2025.
A relação empresarial anterior levantou suspeitas de possíveis conflitos de interesse e favorecimento, mas essas acusações dependem de investigação e comprovação judicial.
Rompimento com Partido Colorado agravou isolamento político
A crise ganhou dimensão ainda maior quando Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e líder do Partido Colorado, anunciou a retirada de apoio a Santiago Peña.
A decisão representou um rompimento significativo entre o presidente e uma das figuras políticas que mais contribuíram para sua chegada ao poder.
Parlamentares da própria base governista passaram a defender o impeachment, juntando-se aos deputados da oposição.
O pedido de afastamento havia sido apresentado por 35 parlamentares e incluía acusações de conflito de interesses, suposto uso irregular de recursos previdenciários e falhas institucionais relacionadas à fiscalização do Ueno Bank.
Com o avanço das discussões no Congresso, Peña enfrentou crescente pressão política para deixar o cargo.
Renúncia abre caminho para sucessão presidencial
O anúncio da renúncia de Santiago Peña representa uma mudança importante no cenário político paraguaio.
Pela Constituição do Paraguai, a renúncia presidencial precisa passar pelos procedimentos institucionais previstos no Congresso.
Em caso de vacância definitiva da Presidência, a sucessão cabe ao vice-presidente Pedro Alliana, conforme as regras constitucionais.
Entretanto, Alliana também foi mencionado em iniciativas parlamentares relacionadas à crise política, o que acrescenta incerteza ao processo.
A definição sobre a continuidade do governo dependerá das decisões institucionais e da situação jurídica dos envolvidos.
Crise deixa desafios econômicos e políticos para o Paraguai
A saída anunciada por Santiago Peña ocorre em um momento de preocupação com a confiança no sistema financeiro paraguaio.
O fechamento do Ueno Bank afetou famílias, trabalhadores, aposentados e empresas que mantinham recursos na instituição.
O governo e as autoridades monetárias iniciaram medidas para proteger os depositantes e organizar a devolução dos valores cobertos pelo sistema de garantia bancária.
Ao mesmo tempo, o episódio provocou questionamentos sobre a fiscalização financeira e as relações entre instituições bancárias, empresários e autoridades políticas.
Para o Paraguai, a crise representa um desafio que ultrapassa a mudança de presidente, envolvendo a necessidade de recuperar a confiança da população e preservar a estabilidade econômica.
Santiago Peña, que chegou ao poder com uma trajetória de destaque na área econômica e experiência em instituições internacionais, deixa o centro do governo em meio a questionamentos justamente sobre a administração e a fiscalização do sistema financeiro.
Sua renúncia marca um momento decisivo da política paraguaia, enquanto o país aguarda a definição dos próximos passos para a sucessão presidencial e a resolução da crise bancária.
