O avanço do sarampo nos Estados Unidos acendeu um alerta para as autoridades de saúde brasileiras. Com mais de 4,4 mil casos confirmados em 2026 e três mortes, o país enfrenta seu pior surto da doença em mais de três décadas, em meio à queda da confiança nas vacinas e às mudanças nas recomendações de imunização.
Segundo os dados apresentados pela Agência Brasil, aproximadamente 98% das pessoas infectadas nos Estados Unidos não estavam completamente vacinadas.
O crescimento da doença preocupa o Brasil porque o sarampo é altamente contagioso e pode atravessar fronteiras por meio de viagens internacionais. Mesmo sem transmissão contínua do vírus em território nacional, casos importados exigem ações rápidas das autoridades sanitárias para impedir novos surtos.
O diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Eder Gatti, avalia que o aumento dos casos nos Estados Unidos está relacionado ao fortalecimento de discursos contrários à vacinação e a mudanças promovidas pelo governo do presidente Donald Trump.
Para especialistas brasileiros, o principal risco é que a desinformação reduza a procura pelas vacinas, permitindo o retorno de uma doença que pode ser prevenida.
Estados Unidos enfrentam aumento de casos de sarampo
O sarampo é uma infecção viral que se espalha pelo ar e pode ser transmitida quando uma pessoa infectada respira, tosse ou espirra.
A doença é tão contagiosa que uma única pessoa pode infectar diversas outras em ambientes onde a cobertura vacinal é insuficiente.
Entre os sintomas estão febre alta, tosse, coriza, olhos avermelhados e manchas vermelhas que se espalham pelo corpo.
Embora muitas pessoas se recuperem, o sarampo pode provocar complicações graves, como pneumonia, encefalite e, em alguns casos, morte.
Crianças pequenas, gestantes e pessoas com o sistema imunológico comprometido estão entre os grupos mais vulneráveis.
O crescimento dos casos nos Estados Unidos ocorre em um cenário de mudanças nas orientações federais sobre vacinação infantil.
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil criticaram as decisões e afirmaram que elas podem gerar confusão entre as famílias, especialmente quando recomendações governamentais entram em conflito com orientações de entidades médicas.
Mudanças na vacinação nos EUA preocupam especialistas brasileiros
Uma das principais preocupações envolve a vacina tríplice viral, utilizada há décadas para proteger contra sarampo, caxumba e rubéola.
Segundo a reportagem, o governo Trump defendeu a aplicação separada dos imunizantes contra essas três doenças, em vez da vacina combinada.
A proposta foi criticada por especialistas porque as vacinas individuais deixaram de ser fabricadas há muitos anos e não há evidências científicas de que separar as aplicações ofereça benefícios à saúde.
O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, afirmou que mudanças sem fundamentação científica podem comprometer a confiança da população.
Ele também destacou que entidades médicas americanas, como a Academia Americana de Pediatria, mantêm recomendações de vacinação diferentes das alterações defendidas pelo governo federal.
A divergência entre orientações aumenta a possibilidade de dúvidas entre pais e responsáveis.
Outro ponto levantado pelos especialistas é a repetição de alegações que relacionam vacinas ao autismo.
Essa associação foi amplamente investigada e não é sustentada por evidências científicas. Estudos de grande escala não identificaram relação causal entre a vacina tríplice viral e o transtorno do espectro autista.
Brasil registra 61 casos e tenta evitar a volta da transmissão do vírus
O Brasil registrou 61 casos de sarampo em 2026, segundo os dados apresentados pela Agência Brasil. A maioria está relacionada à entrada do vírus no país a partir de outras regiões.
Apesar das ocorrências, o Brasil mantém o reconhecimento de país livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado em 2024.
Essa certificação significa que não existe transmissão contínua e estabelecida do vírus no território nacional. Entretanto, casos importados ainda podem ocorrer, principalmente quando pessoas infectadas chegam de países onde a doença está circulando.
O Brasil já enfrentou uma situação semelhante.
Em 2016, o país recebeu a certificação de eliminação do sarampo, mas perdeu esse reconhecimento em 2019, após o retorno da transmissão da doença.
Naquele período, o vírus se espalhou por diferentes estados, e São Paulo registrou aproximadamente 19 mil casos.
Para Eder Gatti, a experiência demonstra a importância de manter a vacinação elevada mesmo quando a doença parece estar controlada.
Vacinação no Brasil melhora, mas segunda dose ainda preocupa
A recuperação da cobertura vacinal brasileira foi fundamental para que o país voltasse a receber o certificado de eliminação do sarampo.
Em 2023, a cobertura da primeira dose da tríplice viral era de 88%, enquanto a segunda alcançava apenas 66% do público previsto.
No ano seguinte, os índices subiram para 96% e 78%, respectivamente.
Os dados preliminares de 2026 apontam 95% de cobertura para a primeira dose e 80% para a segunda.
Apesar do avanço, especialistas alertam que a cobertura da segunda dose permanece abaixo da meta de 95%, considerada essencial para reduzir o risco de surtos.
A proteção coletiva depende de uma proporção elevada de pessoas imunizadas, principalmente porque algumas crianças e pessoas com determinadas condições de saúde não podem receber a vacina.
São Paulo e Amazonas intensificam vacinação contra o sarampo
Para impedir que casos importados provoquem novos surtos, autoridades brasileiras estão reforçando as campanhas de vacinação e a vigilância epidemiológica.
Em São Paulo, onde foi confirmada a maior parte dos casos registrados no país, quase 4 milhões de doses extras foram aplicadas em ações de imunização ao longo de 2026.
No Amazonas, que registrou 17 casos confirmados entre setembro e outubro, foram aplicadas aproximadamente 192 mil doses.
Quando um caso suspeito é identificado, as equipes de saúde iniciam uma investigação para confirmar a infecção, identificar pessoas que tiveram contato com o paciente e avaliar a necessidade de vacinação de bloqueio.
Essa estratégia busca interromper rapidamente possíveis cadeias de transmissão.
O trabalho exige mobilização de profissionais, acompanhamento de contatos e recursos dos serviços públicos de saúde.
Segundo os especialistas, manter a vacinação em dia é mais eficaz do que depender exclusivamente de campanhas emergenciais após o aparecimento de novos casos.
Surto nos Estados Unidos pode aumentar risco de casos importados no Brasil
O crescimento do sarampo nos Estados Unidos preocupa as autoridades brasileiras devido ao intenso fluxo de viajantes entre os dois países.
Pessoas infectadas podem viajar antes mesmo de perceber os primeiros sintomas, favorecendo a chegada do vírus a locais onde a doença está controlada.
De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), as Américas já registraram mais de 56 mil casos e pelo menos 80 mortes no período analisado.
Para Juarez Cunha, da Sociedade Brasileira de Imunizações, o principal desafio é impedir que o vírus encontre comunidades com baixa cobertura vacinal.
O especialista destaca que a proteção coletiva é especialmente importante para recém-nascidos e pessoas que não podem receber determinados imunizantes por razões médicas.
Desinformação sobre vacinas também preocupa o Brasil
Embora as mudanças nas recomendações americanas não tenham sido adotadas pelo Brasil, especialistas alertam que informações falsas e discursos antivacinação circulam internacionalmente pelas redes sociais.
Uma das preocupações envolve a vacina contra a hepatite B, tradicionalmente aplicada logo após o nascimento.
Segundo Juarez Cunha, já existem relatos de pais que passaram a recusar a vacinação de recém-nascidos em maternidades particulares brasileiras.
O especialista explica que a infecção pelo vírus da hepatite B apresenta riscos diferentes conforme a idade.
Em adultos, a maioria das infecções não evolui para a forma crônica. Já em bebês infectados no período neonatal, o risco de cronificação é muito elevado, podendo chegar a aproximadamente 90%.
A infecção crônica pode provocar complicações graves ao longo da vida, incluindo cirrose e câncer de fígado.
Por isso, a vacinação ao nascer é considerada uma medida importante de prevenção.
Como se proteger contra o sarampo?
No Brasil, a vacina tríplice viral está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O calendário de rotina prevê a primeira dose aos 12 meses de idade e a segunda aos 15 meses, conforme as recomendações do Ministério da Saúde.
Pessoas que não receberam todas as doses também podem precisar atualizar a vacinação, de acordo com a idade, o histórico vacinal e as orientações dos serviços de saúde.
Quem pretende viajar para países com surtos ativos deve verificar a situação vacinal antes do embarque.
Em caso de sintomas compatíveis com sarampo, a orientação é procurar atendimento médico, avisando previamente sobre a suspeita para reduzir o risco de transmissão a outras pessoas.
Especialistas reforçam que a vacina é a principal ferramenta para prevenir a doença e evitar complicações graves.
O desafio brasileiro agora é manter a cobertura elevada e impedir que o crescimento dos casos em outros países provoque o retorno da circulação contínua do sarampo no território nacional.
